sábado, 24 de dezembro de 2011

Palavras ao vento




Na antessala de meu avô havia um belo jarro em cima da mesinha. Um jarro lindo, com desenhos graciosos com flores cheirosas e cheias de vida, colhidas no campo cultivado por ele... Aquele vaso tinha um significado ímpar na minha vidinha de criança e, suas flores me enchiam de alegria.
Um dia, cheguei à casa de meu avô e fui correndo visitar minhas amigas flores. Encontrei o vaso no chão da sala,quebrado, e as flores espalhadas pela sala. Senti uma tristeza imensa. Corri ao encontro de meu avô, para que, juntos, pudéssemos encontrar uma solução para o conserto do lindo vaso.
A solução mais prática que vovô encontrou foi colar o vaso e reutilizá-lo. Assim, o vaso permaneceu ali, sobre a mesa, sendo abrigo daquelas flores. Como o vaso estava rachado, já não era capaz de reter água em seu interior, e para que não ficasse sem flores, puseram-no flores artificiais.
Todos os dias eu chegava, olhava o vaso com aquelas marcas e não sentia o cheiro das rosas do campo... a artificialidade daquelas flores tirava o odor agradável da pequena sala.
Um dia, pedi a meu avô que jogasse o vaso fora, ele havia perdido o significado para mim. Que graça tinha olhar para aquelas marcas e para flores artificiais? Tudo o que havia de vida, no vaso já não existia mais. Agora, ele era apenas um vaso quebrado com flores sem vida.

A mentira tem esse papel na vida das pessoas. Ela tira o cheiro e a beleza das relações e deixa cinza as amizades.
Há verdades que não precisam ser ditas, mas se começarem a ser pronunciadas que sejam na íntegra. Quando, por algum motivo, talvez até nobre, tentamos modificar uma verdade o ato se torna maldoso. Permitimos que o outro imagine, crie, invente a tal verdade. O problema, talvez, não é o outro inventar sua verdade. O problema é o sentimento deixado no outro que, enquanto tenta construir uma verdade, pensa na mentira, na enganação, na mácula deixada na, até então, relação de amizade.


Há coisas que realmente não precisam ser faladas. Assim, evitamos alguns deslizes.





7 comentários:

  1. Penso que, quando machucamos alguém com uma inverdade, estamos ferindo não só a outra, mas também a nós. Quando proferimos palavras indevidas estamos destruindo um pouco de nós no outro, afinal o que havia de meu no outro foi, de certa forma maculado por mim mesmo; se mentimos, estamos agredindo verbalmente a quem nos ama.

    ResponderExcluir
  2. Todo mundo passa por isso um dia. Meu vaso quebrado foi minha namoradinha de escola, no jardim da infância. Ela começou a paquerar meu melhor amiguinho. Uma cena me fez quebrar meu primeiro vaso e jogar as flores fora.
    Já quebrei outros vasos desde esse primeiro. Mas ainda não desisti do meu vaso de "kéramos egípcio"

    ResponderExcluir
  3. Ninguém desiste do vaso de Kéramos de primeira qualidade. Mas tantos vaso precisaremos quebrar pra encontrar esse tal vaso. De repente nosso vaso já vem trincado quando chegar em nossas mãos.
    As relações fazem isso com as pessoas, sejam elas de qualquer natureza, deixam marcas em nós. Quem não já foi machucado quando se propôs a gostar de alguém?
    Mas, se é cerâmica boa, virá com a perfeição que sua matéria-prima lhe dispõe.

    ResponderExcluir
  4. Não consegui olhar teu e-mail pra contato no perfil. Tem como tu mandar pra mim no meu e-mail? Quero te mandar umas fotos.

    ResponderExcluir
  5. lembrança, lembrança, lembrança...

    ResponderExcluir
  6. Daniel, meu vaso sou eu mesma. Se eu não for um vaso de qualidade não conseguirei flores fresquinhas para alegrar minhas estruturas. Já sofri muitas decepções, mas isso é comum a quem ama, é comum a quem está vivo. Quem não ama já morreu.

    ResponderExcluir